Imagem capa - Operação Acolhida - Exército Brasileiro, ADRA, ACNUR e LAC por Projeto Além das Lentes

Operação Acolhida - Exército Brasileiro, ADRA, ACNUR e LAC

O projeto tem por objetivo mostrar novos mundos, possibilidades e formas de desenvolvimento pessoal através da fotografia documental. Não nos preocupamos apenas com a qualidade da fotografia, mas os motivos pelo qual ela foi fotografada, acreditamos nas histórias por trás de cada clique, das histórias do então fotógrafo. Em Pacaraima - RR, o projeto atingiu 616 pessoas com as oficinas de fotografia e as exibições de filmes, sem mensurar a quantia de pessoas que passaram pela nossa exposição. Foram 87 cadernos criativos finalizados, 6.110 fotografias clicadas, 1.093 vídeos para o segundo episódio da Série Documental Além das Lentes. Foram dias intensos e gratificantes para nos mostrar que sim, estamos no rumo certo. Tudo isso só foi possível porque acreditaram no que é ser "além das lentes". Enquanto muitos ficaram pensando em números que a gente não tinha, no plano de negócio que a gente não conseguia estruturar sozinhos, outros simplesmente acreditaram e atribuíram em ajudas básicas que são essenciais para conseguir o fazer acontecer.



Estava em São Paulo, trocando experiências em um hostel na Vila Madalena e vivendo todas as coisas mais lindas quando a realidade bateu na porta - estava chegando a data que eu precisava estar em Roraima e eu ainda não tinha dinheiro o suficiente. Como era carnaval, os preços das passagens estavam um absurdo e pensando nisso que resolvi que eu iria subir de BlaBlaCar enquanto trocava trabalho por pouso em outros lugares. Saí no sábado bem cedinho de São Paulo no dia ----, lembro como se fosse hoje o metrô errado que eu peguei e como era bem cedo consegui chegar antes ainda do que a carona. Com essa carona eu cheguei em Goiás e de Goiás eu fui com outra carona até Brasília - ambas as caronas com motoristas militares e eu pensando no preconceito que eu tinha até então. Cheguei em Brasília às 22hrs com a notícia de que minha aplicação no hostel não havia dado certo e que não tinha vaga para hóspede, foi então que pedi para que a carona me deixasse na rodoviária - terminal urbano, e assim começou uma noite bem louca. Vi uma lanchonete 24hrs e foi ali que eu decidi ficar até resolver o que eu ia fazer, já que eu tinha que decidir bem o que iria fazer com R$ 236,00. Achando um lugar para ficar, na segunda ia liberar uma vaga para trabalhar no hostel, porém os questionamentos surgiram: e se não dar certo novamente? Como vou me alimentar? Prazo da minha chegada em Roraima, como ficaria? Como não usam BlaBlaCar aqui? Estava no celular resolvendo quando vi um movimento estranho - teve um arrastão e a polícia estava correndo atrás dos jovens que estavam assaltando no carnaval, esses mesmos que sentaram na minha mesa para disfarçar.  Nesse momento eu comecei a pensar: se o policial revistar a minha mochila vai ver todos os equipamentos e nessa possibilidade havia de achar que eu tinha roubado, mas comprovando que eram meus eu poderia ser assaltada pelos jovens - mas eles só passaram, olharam intimidando os jovens e foram embora enquanto eu estava surtando em vão. A noite mal tinha começado e eu já tinha passado por tudo isso, voltei para o meu celular para continuar pesquisando passagens quando o inimaginável aconteceu: "moça, você parece uma menina bacana, então guarda o teu celular porque eu sou assaltante", e o trovoa na minha cabeça voltou. Guardei o celular lentamente e o --- sentou na mesa e começou a conversar comigo, retribui a conversa quando ele começou a avisar a todas as pessoas que poderiam me assaltar que eu era amiga dele e que não era para chegar perto - logo comecei a chorar, qual a probabilidade disso acontecer?


Enquanto estive deitada no banheiro público peguei no sono e no meio da noite acordei com várias mulheres ao meu redor dormindo junto. Em que momento elas entraram, pensei - eu não ouvi nada de tão pesado que havia dormido. Voltei a dormir até que as sete da manhã me acordei, lentamente comecei a arrumar as coisas, escovar os dentes, renovar o desodorante, quando a dona Maria avisou que o banheiro iria ser aberto em breve e sugeriu para que eu fosse no andar de baixo em que havia um posto policial operante em horário comercial. Desci e eu só conseguia chorar, quando um policial falou: "pronto, mais uma mochileira bêbada". Fiquei irritada e falei que iria me acalmar para então explicar. Expliquei e mais uma ironia veio: "passou por tudo isso e agora que está chorando?". 

"SOU HUMANA, MEU QUERIDO".

Outro policial veio do fundo e falou que não costumavam fazer isso, mas que eu poderia usar o banheiro deles para tomar um banho e me estabilizar para então viajar. Depois do banho recebi a notícia do Luiz que a ADRA iria comprar a minha passagem de avião até Manaus, passava o dia por lá e a noite eu iria de ônibus para Roraima. Sucesso, fiquei até as 18hrs no centro policial e de lá peguei um ônibus municipal para o aeroporto - viagem deu tudo certo, passei um dia incrível em Manaus e fui para Roraima. Depois da noite toda dentro do ônibus cheguei em Roraima, deixei minhas coisas na casa do Pastor Arlindo - diretor da ADRA - e logo fui fotografar uma doação de marmita para refugiados da Venezuela que estão no Brasil ao lado da rodoviária da rodoviária local. Naquele momento os meus perrengues haviam sido bobeira perto do que aquele povo estava vivendo - e estão ainda. 


No mesmo dia subimos de Boa Vista para Pacaraima e no caminho encontramos no caminho o William - jovem que atravessou ilegalmente pela fronteira caminhando e que estava indo para Boa Vista, foi um impacto já que o mesmo estava caminhando a média de 100km. Decorrer da semana conhecemos os dois abrigos da Operação Acolhida - BV8 e Janokoida - e as duas comunidades indígenas que estão recebendo os refugiados da Venezuela da mesma etnia - Tarau Paru e Sakamutá, para então iniciar as oficinas de fotografia e as exibições de cinema. Com o apoio da ADRA, do Exército Brasileiro e ACNUR de Roraima, conseguimos o deslocamento até os locais, alimentação, pouso e impressão das fotos para o Caderno Criativo. Era sexta-feira quando chegamos na primeira comunidade com nossos equipamentos, esperando que nossa turma estaria formada, que seria conforme nossa classificação indicativa e cronograma metodológico. Sentamos na casa do Tuxaua (chefe da comunidade) e ficamos conversando com a esposa dele, ali percebemos que não tem mais sala de aula porque os refugiados estão utilizando como casa, logo veio a solução: na igreja. Aos poucos as crianças foram chegando antes dos adolescentes, foram formando uma roda, sem entender questionei o que estava acontecendo e me responderam: eles estão esperando por vocês. Saímos e foi chegando mais pessoas, aquilo assustou a ponto de dar um branco em o que falar e como começar, entreguei as câmeras para o Luiz registrar aquele momento e a mais três crianças para tentar ensinar. Eu só pensava, como eu vou dar aula para todas essas pessoas? Não vai ter equipamento suficiente, vai dar briga. Por que eu comecei entregando as câmeras sem a apresentação oficial? Minha preocupação só aumentava. Queriam tirar uma foto comigo e uma criança do nada tentou limpar a minha Melissa, fiquei sem reação, ela com os pés descalços estava preocupada comigo, precisei resgatar minha humildade, me abaixei para perto e ela fez carinho nos meus cabelos.



Chegou a segunda-feira. Voltamos para a comunidade somente no período da tarde, não conseguimos pela manhã porque é longe do exército e dependemos de carona. Tivemos que dividir o mesmo espaço com as aulas de português do Luiz, ali decidi que o espaço ficaria com ele e eu iria fotografar quem fosse se inscrever para oficina de fotografia, assim os alunos já começariam no outro dia suas atividades com as fotos impressas deles. Foi muito divertido porque muitos nunca haviam sido fotografados ou até mesmo pegado em uma câmera profissional. Quando voltei para a base resolvi que eu iria fazer um caderno criativo com eles, FOI INCRÍVEL, estava dando tudo errado. Depois da apresentação eles tinham que desenhar o que eles queriam estar fazendo para daqui cinco anos e depois de um minuto disse para passar o desenho para o colega ao lado, eles precisavam dar continuidade ao sonho. A atividade que era para girar em círculo estava indo para outros lados. Logo saquei que eu poderia usar aquilo para explicar que nem sempre as coisas andam como queremos e tive a oportunidade de dizer isso quando questionei sobre o que eles tinham começado era o que tinha sido continuado. Outra atividade foi a que escreveram quatro coisas que mais gostavam da comunidade, tinham que explicar os motivos, mas a pior parte é que precisavam sair para fotografar as quatro coisas, cinquenta alunos e quatro câmeras. Consegui mostrar com o caderno sonhos, esperanças, dificuldades, mas principalmente trabalho em equipe. Na semana que entreguei os cadernos montados senti outras pessoas ali, eles aprenderam a dividir a turma em grupos para conversar comigo e quem tinha as mesmas dúvidas vieram juntos, como também dividiram as tarefas para que todos pudessem colar as fotos nos cadernos. Até que ponto algo é ruim?


Pela primeira vez chegamos em uma comunidade sem saber sobre a realidade dela, justo em uma comunidade que está recebendo refugiados de uma situação delicada. Nos surpreendemos como as coisas seguem sendo construídas. Organizamos um cinema na comunidade e foi assim que o Bóris nos fez chorar: Levamos dois filmes para a escolha deles - Divertidamente e O Menino que Descobriu o Vento. A comunidade escolheu o filme do menino, resolvemos questionar o motivo e ele nos respondeu: ele faz a gente lembrar da nossa realidade, assim nos faz seguir firmes lutando e também para agradecer por estarmos vivos. PRIMEIRO TAPA. Depois que ele nos ajudou com as pipocas, suco e organização, enquanto assistimos ele foi narrando de forma simultânea as situações que ia mostrando no filme com o que vivenciaram. VÁRIOS TAPAS. Enquanto o filme ia veiculando a esposa do Tuxaua veio nos avisar que a gasolina do gerador estava acabando, preocupação era de que o filme fosse terminar e eles não conseguissem assistir a principal parte dele, como ele descobriu o vento. Nisso ele me questionou: vale a pena assistir até o final? Respondi que sim. Quando as coisas aconteceram só consegui escutar os aplausos de felicidade deles e ele falou: realmente valeu. É por eles que continuamos.


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BV8 é um abrigo provisório para os refugiados da Venezuela, é dentro do exército brasileiro na operação acolhida. Algumas agências estão realizando atividades internas para desenvolvimento deles, nós participamos por uma semana ensinando fotografia documental para uma turma e foi mais uma das experiências incríveis que vivemos na fronteira. Nesses dias conseguimos entender os motivos da persistência das professoras que já estavam desenvolvendo um trabalho importante lá dentro - ali elas precisam disputar a atenção do conteúdo com os outros adultos que ficam no entorno, muitos querendo aprender e outros conversando. Disputando também com as jogatinas de dominó, rotina de limpeza do abrigo e com o fluxo de entrada e saída dos refugiados. Elas nos ajudaram nas oficinas e foi incrível ver esse trabalho de perto e poder ajudar de alguma forma, da nossa forma. Contar a história da fotografia para jovens que estão tentando entender a própria história foi baita desafio. Desafio concluído, a atenção que eles tiveram e a curiosidade de saber "qual foi a primeira fotografia?", "o que a química têm em comum com a fotografia?", "quais os químicos que foram usados?". No BV8 também fizemos os cadernos criativos, mas aqui um pai chegou todo tímido e veio nos agradecer por proporcionar educação e lembranças, as únicas fotografias da família foram clicadas para as oficinas e pelo filho, todo orgulhoso ele estava. Ganhamos uma maçã, humildade de quem divide o que tem e não o que está sobrando. Detalhes, importantes detalhes.


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Janokoida foi mais um dos abrigos com refugiados que nós participamos com a nossa oficina de fotografia, mas com eles a ordem foi diferente, começamos com o cinema ao ar livre. Cada lugar têm suas características e esse não seria diferente. Sessão cheia de rostos em busca do novo conhecimento. Apesar do filme estar em português o silêncio permaneceu. Em algumas partes do filme que seriam relativamente tristes eles estavam rindo, talvez pela cultura ou por sentir no riso uma defesa com a realidade. O primeiro dia das aulas de fotografia fizemos o nosso caderno criativo, mas parecia que as coisas não rendiam, que tinha muita conversa e depois entendi que era porque alguns alunos não sabiam escrever e seus colegas estavam transcrevendo as palavras. Foi então que o Luiz entrou em ação, já que a maioria das aulas trabalhamos com a escrita no caderno, ele deu a ideia de transcrever o que eles diziam e eles teriam que copiar abaixo, assim estimularia o aprendizado - foi a melhor ideia. A vergonha que eles tinham de contar que não sabiam escrever havia passado e estimulou não só aprender a escrever como também criar com a fotografia as suas dificuldades. O resultado não poderia ser diferente, intenso e criativo. As ideias fluíram e eles queriam guardar aqueles momentos através das fotografias. Eles nos mostraram que quem realmente quer aprender busca as melhores formas ao seu alcance, não precisa ser a melhor mesa escolar, não precisam de desculpas.


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Se alguém viesse nos contar que um dia iríamos fazer o nosso workshop para algumas das maiores agências de desenvolvimento humano, eu jamais iria acreditar. Fizemos o mesmo workshop que fazemos para os nossos menores, com a mesma metodologia de apresentações e atividades. Começamos com atividades de autoconhecimento através da escrita e desenho, nos apresentamos através da fotografia e fomos para a parte teórica da fotografia documental. É incrível poder passar para várias realidades o mesmo conteúdo e sentir as mesmas dificuldades e emoções. Obrigada @smithais 🌹❤


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Temos como objetivo finalizar todas as oficinas com o cinema ao ar livre e a exposição fotográfica do material, mas nem sempre o nosso financeiro permite. A ideia é que, além do caderno criativo, eles possam ver as fotos do desenrolar das aulas, fotos essas que eles clicaram e mostrar elas para as suas famílias. É uma forma de valorizar e de empoderar a ideia de documentar o real, é produzido por eles e organizado para eles. Na Operação Acolhida conseguimos fazer uma exposição graças ao apoio da ADRA e ACNUR de Roraima, na exposição teve as fotos do abrigo BV8 e do Janokoida.






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Na Comunidade Bananal foram 26 alunos  que receberam o certificado por concluir todas as aulas. Quando vocês eram mais novos, o que faziam nas férias? Eu, Ângela, ia sempre na casa dos meus tios no interior, onde a paz dos campos reinava e eu podia sentir todo amor que tem por lá. Quando mais velha não consegui mais ir com tanta frequência, muitas vezes por falta de organização da minha parte. Eu tenho um tio que sempre me abraça e eu começo a chorar. Bananal me fez refletir muito sobre as coisas boas da vida, sobre como priorizamos o financeiro em vez de algo que realmente nos faz bem. Nessa comunidade da para sentir cada pessoa, como conseguia sentir nos meus tios. Precisei ir para longe para perceber que pessoas como eles que quero do meu lado. Foi nessa comunidade que mesmo com a imunidade baixa fui inspirada a continuar fazendo as oficinas. Lá não tem energia, somente algumas famílias conseguem ligar geradores no período da noite. Dormimos em redes, nossa sala de aula foi o mesmo espaço da cozinha e sem contar o lindo igarapé. No decorrer dos dias nossos alunos foram fotografando as coisas que mais gostam da comunidade, seus objetos pessoais favoritos, escrevendo sobre seus dias e a partir disso a criação de um stop motion. Como ficamos dentro da comunidade a semana toda, foi mais fácil desenvolver as atividades - na comunidade não tem energia então resolvemos aproveitar isso e ensinar a técnica light painting no período da noite. Decidimos escolher nossos alunos destaques para que eles pudessem passar o final de semana com o nosso equipamento fotográfico. Escolhemos a partir do desempenho nas atividades durante a semana e os alunos escolhidos foram a Maria e o Clotildo. O resultado impresso do caderno criativo foi entregue quando vieram nos buscar na comunidade e nessa ocasião imprimimos também as fotos clicadas pelos alunos que passaram o final de semana com as câmeras.

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Boa Vista sempre foi uma cidade que íamos quando o Pastor Arlindo solicitava ou quando precisávamos respirar fora do abrigo - em uma dessas, acabamos parando conhecer a Pintolândia na ação de saúde da ADRA. Ali conhecemos uma realidade mais intensa de abrigo, porque tentaram adaptar conforme a cultura dos indígenas, mas não conseguiram ocultar o sofrimento de quem vive aquela realidade e ao mesmo tempo a felicidade de estarem vivos. 


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Não precisamos de muito e só temos a agradecer por cada coisa que ganhamos, que acabou sendo muito mais do que esperado. Obrigada por cada doação em dinheiro para exibição do cinema, obrigada exército pela acolhida e alimentação, obrigada LAC pelas duas câmeras doadas, obrigada Gisele pela Canon que nos doou, obrigada ADRA por nos apoiar com a passagem de Brasília até Boa Vista e principalmente pelo Pastor Arlindo ter nos acolhido na sua casa e família. Obrigada ACNUR por todo suporte de deslocamento, impressão dos materiais, cinema e exposição. Obrigada Luiz por nos ajudar em todas as oficinas e ser a nossa organização. Vocês que fizeram acontecer todos esses números e transformações 🌹