26/11/2019 às 16:25

G10 Favelas - Conexão Construtiva, SP

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8min de leitura

G10 das Favelas é um grupo de líderes comunitários e empreendedores de impacto social engajados para transformar as favelas como grandes polos de negócios. G10 é fruto de uma pesquisa de dados sobre os dez maiores PIB's das favelas do Brasil. Atualmente as favelas movimentam um capital bilionário e ainda assim não são bem vistas pela sociedade, faltam oportunidades. Se grandes potências como Paraisópolis, que movimentam R$ 706 milhões, tivessem o mínimo de atenção, fluxos como deslocamento para trabalhar no centro diminuiria, qualidade de vida aumentaria, educação teria mais resultado - falando em direitos mínimos. O potencial coletivo e conectivo através de soluções de impacto e através do incentivo à inovação tecnológica empreendedora tornam-se pilares importantes de desenvolvimento de muitas áreas, por que não nas favelas?

Nós participamos do evento com as nossas alunas da Vila Prudente - Yasmin Cavalcante e Danielly Cavalcante - participaram do G10 como fotógrafas. Yasmin e Danielly são duas irmãs que residem na favela da Vila Prudente. Yasmin com 12 anos, foi nossa aluna na Arca do Saber, quando ficamos por um mês ensinando fotografia. Ela foi uma das alunas mais ativas nas aulas e a que mostrou mais interesse em continuar na área. Danielly com 18 anos, foi a responsável pela Yasmin, o sonho dela é estudar psicologia para ajudar nas escolas. Ela foi para cuidar dela e acabou não resistindo aos encantos da câmera. Nossa missão era contar histórias através da fotografia, escuta e escrita, histórias de pessoas que estavam fazendo o evento - desde organização até participação. Histórias inspiradoras não faltaram e provaram mais uma vez as grandes potências que existe e resiste em Paraisópolis. 

Emerson é cria de Paraisópolis e quase nasceu na favela dentro de um fusca. Conhecido na comunidade por Barata, prefere ser chamado assim porquê além de todos o conhecer por esse nome, reflete muito da história de vida pelo qual todos têm orgulho. Viveu seus 34 anos em várias situações, desde movimento com armas até pai e empreendedor social. A história do Barata começa quando seus pais, que são de Pernambuco, decidem vir para São Paulo com o sonho de uma nova vida, para trabalhar na obra do Estádio do Morumbi. Paraisópolis ainda era uma fazenda quando ganharam um espaço para construir sua humilde casa, eles são uma das famílias mais antigas da comunidade que hoje encontra-se com 100 mil habitantes. Batata como menino, sempre gostava de jogar bola. Sua mãe incentivava, mas ela não tinha a noção do que era ser um jogador profissional, ela incentivava porque achava que era apenas uma diversão em meio a toda aquela realidade difícil, de muita morte. Todos falavam que ele jogava bem, até que oportunidades para jogar em times profissionais foram surgindo fora da favela. Começou com times do interior como América Futebol Clube, Taboão da Serra, Fernandópolis, e então com quatorze anos virou profissional. Como jogador de futebol profissional, viajou por vários países como japão e algumas vezes precisou morar fora da comunidade. Acredita que isso foi importante no processo dele para que pudesse conhecer uma São Paulo que ele não teria oportunidade de conhecer sem ser jogador, porque provavelmente iria sair da favela apenas para trabalhar e não para conhecer. Menino com quinze anos é cultural na favela precisar trabalhar para poder ajudar a mãe dentro de casa. Ao mesmo tempo que o sair conhecer novos mundos foi bom, o choque do preconceito e do descaso também foi intenso, descobriu na prática o quão descriminadas as pessoas que moram na favela são, mesmo tendo uma profissão.  Com o futebol diretamente ele não conseguia sobreviver e ajudar a sua família, porque ele jogava por seis meses em um time e precisava estar preocupado com o próximo contrato, por não ter empresário. Quando não conseguia, ele ficava três meses sem trabalhar. 

Sonhos

Como jogador de futebol o sonho dele não era jogar na seleção ou jogar com outros jogadores famosos, o sonho dele era jogar contra o seu pai, Amilton - conhecido como Rotinha. Seu pai era traficante e muitas vezes Barata quando pequeno precisou atravessar Paraisópolis com armas e esse foi o surgimento do apelido de Barata. Amilton, antes do tráfico, foi goleiro do time do Flamengo, e devido à essa nova "escolha" de profissão, todos temiam de jogar contra o time de futebol que havia dentro da comunidade em que ele jogava. Barata teve uma oportunidade de jogar contra e agarrou, mesmo com a proibição do pai. No primeiro tempo o treinador deixou como reserva e quando o Barata entendeu que não poderia jogar por causa do seu pai, foi até a mesa e falou de uma substituição, o treinador só viu quando ele estava em campo. Primeiro contato com a bola fez o gol, empatou o jogo e ganhou o mesmo após driblar o seu pai. Ao mesmo tempo que incomodado, Amilton ficou orgulhoso do filho. 

"Para tudo têm os dois lados do bem e do mal, Barata, o que você vai escolher?"

Barata foi pai aos 15 anos, e dois anos depois o seu pai Amilton veio a falecer, foi assassinado devido ao tráfico. Com o falecimento as condições pioraram e ele precisou a priorizar ficar mais perto da sua família. Ele afirma que o futebol salvou a vida dele e moldou para o que ele é hoje. Com muito orgulho de quem vive em Paraisópolis, ele tornou aquela brincadeira da mãe em profissão e hoje ajuda outros jovens a seguir o sonho de ser jogador de futebol. Da favela para o mundo, e do mundo para a favela, para ajudar os seus com o "Craques do Amanhã". Ele incentiva os jovens dizendo que o primeiro passo precisa ser deles - autonomia e protagonismo - usando ele como exemplo: primeiro jogador vindo da favela e hoje orgulhoso de ser chamado de professor.

Anderson, Carlos e Rúbia são fundadores do primeiro coworking na Cidade de Tiradentes. Ambos trabalharam juntos na criação e desenvolvimento da Funk TV - primeira mídia específica do funk e uma das maiores redes  em São Paulo de informações sobre o gênero. 

Acompanhamos muitas histórias de jovens que buscam uma nova vida, a de Gilson não foi diferente: com treze irmãos nunca soube quem é o seu pai, Sua mãe, Maria Lúcia Rodrigues, faleceu quando ele tinha nove anos, era muda e vista em casa como louca. À medida que tinha filhos, suas irmãs encarregavam-se de entregar os bebês sem seu consentimento a quem quisesse levá-los. Foi assim com Gilson, que foi morar com um casal de italianos, mas acabou devolvido dias depois. Quando veio para São Paulo morar com uma tia era uma casa com mais de vinte pessoas, sem lugar para dormir, o garoto achou refúgio embaixo de uma mesa de sinuca no bar que funcionava na frente da casa. Hoje Gilson Rodrigues é um dos responsáveis do G10, o baiano de Itambé é também é consultor, líder comunitário, empreendedor social e foi inspiração do personagem Cícero, interpretado pelo ator Danton Melo na Novela "I Love Paraisópolis" - que retratou seu papel como presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis. Pode-se dizer que seu caminho já havia sido traçado quando ele decidiu candidatar-se para o grêmio estudantil da sua escola quando mais novo, pode ser que ali ele viu que poderia buscar transformações a partir das suas possibilidades e hoje o resultado está visível: além dos seus trabalhos para criações de institutos e criações de atividades culturais, ele é um grande potencializador de pessoas da favela, esse é o seu objetivo. Ele diz que o final feliz ainda está longe - mas passo a passo, sempre.

Yasmin, ela tem vinte anos e é nova em Paraisópolis, está residindo no bairro à um ano. Ela saiu de Brasília para São Paulo com o objetivo de abrir uma rede de food truck com uma amiga, a ideia era que fosse mais em conta do que os normais, para que mais pessoas pudessem consumir. Não deu certo o seu negócio, mas como o objetivo de ajudar o próximo era maior do que tudo as oportunidades foram surgindo. Em meio as dificuldades ela buscou emprego fixo e acabou conhecendo a União dos Moradores. Inicialmente fez alguns cursos no espaço, depois começou atuar como voluntária e hoje ela é uma das responsáveis pelo CineClube. É um projeto de cinema como entretenimento para a comunidade, levar algo novo para aquele espaço já que infelizmente muitas não têm acesso ao cinema convencional, e o objetivo é gerar uma conversa com um palestrante para conversar sobre os temas, para aguçar o senso crítico da comunidade. Ela não para ali, ela está com um projeto em andamento de criar um canal no YouTube denominado "Fábrica dos Sonhos", para contar as histórias boas das comunidades, sair das histórias ruins que as pessoas têm sobre as favelas. Ela conta que aprendeu a amar Paraisópolis por ela ser diferente de outras comunidades que ela já viveu, foi ali que ela se encontrou como empreendedora social e seu sonho é baseado nisso, por ela ter vivido uma vida difícil. Ela é movida pelas causas, ela enxerga muitos exemplos que são focados na comunidade e não somente no dinheiro.

"Força jovem e ativa no empreendedorismo social"

O nome dele é Antônio Agnaldo da Silva, tem 55 anos e é conhecido como Berbela. Ele é pernambucano, que vive por anos em Paraisópolis. Todo o trabalho dele começou inspirado em uma bicicleta, a partir de uma bicicleta de um primo dele ele começou a reciclar todas as peças e a criar. Ele ensina sua arte nas escolas, expõe elas em feiras e eventos, como também já recebe encomendas. As peças são retiradas com o seu carinho de mão na própria comunidade - em oficinas e nas ruas. Para ele é muito difícil vender as suas artes porquê ele faz por amor, e não por dinheiro. Para ele é importante apreciar a sua arte, como também o fato dele preservar o meio ambiente. 

É por pessoas como o Quitério Rodrigues da Silva que movimentos como o G10 são inspirados, pessoas que fazem a comunidade. Ele é residente de Paraisópolis à dez anos já, ele conta que ama morar no bairro, porque pessoas que - como ele - que gostam e têm coragem de trabalhar o bairro é perfeito. Ele junta papelão, caixote - trabalha com reciclagem, ganhou um terreno para deixar a reciclagem. É o dia todo carregando os materiais, não tem domingo ou feriado, se um dia ele não estiver trabalhando, é porque ele está doente, trabalhar é o que faz ele feliz, quer fazer isso até o último dia da vida dele. Não falta nada para ele, porque ele tem amor com os seus 63 anos, e nascido no dia 31 de dezembro. 

Acreditamos que quando compartilhamos nós somamos e não diminuímos, se cada pessoa pudesse compartilhar o que sabe com outra pessoa vamos estar gerando oportunidades de crescimento, tanto pessoal quanto profissional para todas as partes. Tivemos a oportunidade de fotografar o evento e levamos as nossas meninas para fotografar, o que você pode compartilhar?

Mais fotos do evento:

26 Nov 2019

G10 Favelas - Conexão Construtiva, SP

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