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"Era uma vez uma menina vaidosa..."



"Gostamos dos detalhes, dos sentimentos que uma fotografia pode demonstrar. Somos o amor do momento em que seus olhares cruzaram-se, a alegria de seu melhor e sincero sorriso. Não queremos somente uma fotografia, queremos contar uma história de cada um em especial".


NOTAS SOBRE ÂNGELA

Falar do projeto sem contar a minha história é um pouco difícil. Idealizei ele e adaptei conforme a minha vida foi ganhando finalmente vida. Meu nome é Ângela Reck e vou tentar resumir os meus 26 anos. Sou natural de Seara - SC e atualmente estou viajando pelo Brasil com o meu projeto cultural. Quando eu tinha cinco anos minha mãe faleceu e fui morar com uma nova família. Saí de casa com dezesseis anos porque acreditava que não era amada e precisava buscar minha vida. Trabalhei por dois anos e meio em um escritório de contabilidade em Seara enquanto cursava audiovisual em Chapecó. Em 2013, resolvi morar em Chapecó e por indicação da minha colega Sabrina, fui conhecer a org Kirka. Fui contratada para ser professora de fotografia e cinema, insegura como uma ainda aluna de audiovisual, acabei trabalhando por um ano e meio com eles.  




Acabei saindo da org porque eu tinha o sonho de ir para Hollywood, queria ser produtora audiovisual e ganhar um Oscar: como todo bom sonho tem seus imprevistos e mudanças. Trabalhei por uns meses em um escritório de contabilidade até que fui chamada para uma entrevista em uma produtora/canal/agência chamada Rede TV Box. Trabalhei como coordenadora de produção audiovisual até receber um chamado especial, minha avó estava doente e precisava de mim. Ali vivi meus melhores sonhos e pesadelos. 




Quando eu nasci ela falava que era eu que iria cuidar dela, não deu outra. Um mês com ela eu já estava surtando, eu precisava me ocupar além das tarefas de casa, fui atrás e consegui um emprego no O Boticário. Foi assim que minha avó acabou trocando o dia pela noite e eu já não dormia mais. 


- cuidar da avó, limpar a casa, fazer comida, dar banho na minha avó, ir trabalhar, tentar comer, tentar dormir, tentar ter vida, eram as minhas metas diárias - 


O que eu amava afinal? Cuidar da minha avó me fez repensar muito o que eu fazia da minha vida, o que eu realmente amava e até que ponto eu iria para conseguir o que eu queria ou precisava fazer, ali existia um buraco negro. Foi nisso que eu pensei, esse buraco abriu quando eu saí do projeto. Era isso que eu amava, meu projeto, meus irmãos, a minha avó e o Cooper.


- cuidar da avó, limpar a casa, fazer comida, dar banho na minha avó, ir trabalhar, tentar comer, tentar dormir, tentar ter vida, reescrever meu projeto e estudar como fazer acontecer, eram essas as novas metas diárias - 


Quando eu começava surtar com todas essas coisas eu pegava meu mini coelho, meu caderno criativo e ia para o mato ao som de Jake Bugg. Sumia por horas. Até que isso já não supria mais a minha sanidade. Recebi uma proposta boa para voltar a Chapecó, então resolvi ir no advogado para deixar tudo certo e levar a minha junto, estava disposta a pagar sozinha uma enfermeira. Duas semanas depois da reunião, ainda pensando na mudança, minha avó faleceu. Fiquei dois meses sem sair da casa da minha mãedrasta e pude sentir todo amor que eu parecia não ter sentido quando era mais nova. Meu irmão mais novo é o que queria dormir comigo, o coitado acordava a noite com o meu acordar achando que ainda precisava levar leite para a minha avó. Mas ali já não era mais a minha casa. Resolvi voltar para Chapecó, mas tudo era muito forte, tudo me fazia lembrar da minha avó, inclusive as pessoas perguntando como ela estava. Resolvi então ir para Florianópolis, meu irmão por parte de mãe estava lá. Quem me levou até Florianópolis foi o meu amigo André, ele também estava de mudança para a ilha. Viemos com o carro rebaixado de tanto peso e a partir daí o coitado virou meu auxiliar de mudanças, foram muitas após essa.





Em Florianópolis achei que as coisas seriam diferentes, fui com a ideia de chegar lá e conseguir um edital para idealizar o projeto, mas até hoje não sei o que é ganhar um edital. No começo fiquei na sogra do meu irmão, estava conseguindo um dinheiro como freela e a Ângela independente queria estar ativa de novo. Fui morar sozinha, lá eu dormi no chão porque eu não tinha mais dinheiro para comprar móveis, e tive que devolver os que eu tinha comprado. Minhas cobertas nunca foram tão úteis, viraram minha cama por um tempo, até que a igreja que meu o irmão vai, me doou um colchão. Minha base de alimentar era pão com banana. Mas já não estava mais conseguindo pagar o aluguel, fui morar em uma kitnet que não tinha foro, bem no inverno. Florianópolis não é tão frio, mas tem muito vento. O dono da kitnet falou que era para eu morar lá até conseguir um emprego, quando eu tivesse um eu começaria pagar aluguel. Nessa kitnet eu tive uma vizinha, a Eliane, que me ensinou o que realmente é humildade: ela dividiu comigo a comida que pouco tinha para ela. COMO ASSIM ESSAS PESSOAS ME AJUDANDO? Nunca precisei de ninguém e nunca tinha ajudado ninguém antes. Me deixava mais forte e mais fraca, ao mesmo tempo. Comecei a desanimar a ponto de ir trabalhar no financeiro de uma imobiliária, não podia nem ver a minha câmera e estava disposta a cursar universidade de contábeis. 






Nessas arrumações de quarto encontrei o meu caderno criativo, li as minhas escritas sobre como eu queria fazer meu projeto e a fagulha acendeu de novo. O QUE ESTOU FAZENDO DA MINHA VIDA? Comecei pesquisar projetos que eu poderia ajudar com fotografias, eu não tinha finanças para sair do emprego, então seria eu uma voluntária de final de semana. Encontrei o Lagoa Social, mas cheguei lá e estava o Cidades Invisíveis. Apresentei meu projeto e o Samuel me falou que eu precisava conhecer a comunidade antes de tudo. Era sábado antes do natal, na sexta a noite eu tinha ido trabalhar de bartender em uma empresa e fui direto para o Frei Damião. AMOR À PRIMEIRA VISTA. Cheguei em casa e só queria editar as fotos. No outro dia eu fui revisar o material e encontrei uma fotografia de uma senhora olhando fixo para mim, poxa, me encontrei naquela fotografia. Essa foto que estava estourada, que errei o foco, essa mesma foto que eu tinha descartado já continha quanta história sem mesmo saber de nenhuma história das personas dela. 




Vi que eu tinha gravado uns takes, separei os vídeos, editei e enviei. Amaram e fiquei por um ano como voluntária, mas eu precisava de mais, era o meu projeto que eu queria fazer. Foi então que comecei fazer as atividades extras do projeto: as saídas fotográficas e o cinema ao ar livre.




EU POSSO MAIS? Posso. Resolvi sair da minha garantia financeira, saí da imobiliária porque eu iria pro oeste trabalhar e voltar somente para fazer o meu projeto. Sim, comecei ir para oeste de Santa Catarina somente para trabalhar. Óbvio que ia dar errado e eu voltei para a saga "pão com banana". Eu estava cansada, as pessoas não priorizavam pagar fotografia e muito menos quem estava longe, mesmo já com as fotos em mãos. Recebi a proposta para voltar para o oeste de vez, fiquei balançada, mas decidi pela última vez tentar enviar meu currículo em produtoras da ilha. O Fernando da 30 por Segundo me respondeu dizendo que não tinha emprego fixo, mas tinha freelas, PERFEITO, ia conseguir trabalhar e fazer o projeto. Não era certeza de trabalho e nem de freela, mas logo enviei mensagem para Concórdia dizendo que eu não ia mais. Uma semana depois fui chamada para um teste e depois do teste mesmo já fui escalada para a gravação do DVD do Dazaranha com a Camerata - pelo visto fui bem no teste. Mais trabalhos bons vieram. Eu já não dava mais conta porque o projeto estava desnorteado a ponto de ter pessoas achando que ele era uma produtora social, eu estava desnorteada. 




Parecia que nada dava certo. Quando não era problema com câmera, era notebook ou era desânimo mesmo, as coisas precisavam mudar. Uma pessoa que me apoiou nesse momento, hoje em dia não está do meu lado. Minha família não entendia o que eu fazia, um dos meus irmãos dizia que eu fazia por vaidade, mas nem eu entendia como os outros iriam entender? Minha amiga Marcela ao mesmo tempo que me atazanava, me ajudava com as nossas danças esquisitas para acalmar. Foi quando finalmente a viagem para Amazônia iria finalmente sair. Enquanto estava na imobiliária eu tinha visto uma postagem sobre uma missão na Amazônia, opa, quero fazer um documentário e fui, quase um ano depois. Senti um amor tão forte naquele lugar como nunca havia sentido.  


Relato sobre a viagem para a Amazônia




Meu projeto atingiu outro nível e eu ainda não sabia como fazer as coisas. Meu amigo Pedro me indicou para atender no CASE, no centro de menores infratores em Florianópolis. Lá eu consegui entender o real significado e propósito do projeto: buscar e estimular novas oportunidades para pessoas que sentem que não tem seu lugar no mundo. Eu já me senti assim, mas tive meus privilégios de ter pessoas que me amam do lado. E quem não tem? 





Dentro do CASE eu fiz o Workshop do Saber. Eles responderam perguntas pessoais e internas, desenharam sobre sonhos e falaram uma palavra que representassem eles. No intervalo o diretor do centro veio falar que nunca tinha visto eles tão empolgados. Ganhei um gás. Depois do intervalo iniciamos a parte prática, eles precisavam criar uma série fotográfica sobre seus sonhos, mas dentro da realidade deles. Resultado:



Foto clicada por aluno.


A Era Worldpackers:

Insisti por mais um ano em Florianópolis, até que o Rodolfo da Worldpackers me ligou para ir a São Paulo para apresentar o meu projeto por lá. Tudo que eu tinha trabalhado por três anos eu consegui em São Paulo em uma viagem e de quebra eu tive o que há muito tempo eu não tinha mais, vida social. Tudo era tão além das lentes que muitas vezes eu esquecia que ali tinha uma Ângela ali. Eu queria mais daquilo. Resolvi viajar com o meu projeto, iria viajar um mês e ficar dois meses trabalhando. Comecei a organizar a minha ida e como nada é fácil nessa vida, estragou câmera e fiquei sem notebook. Foi ali que o meu irmão Neliton e minha mãedrasta pagaram por ambos. Não posso desistir agora. Decidi que não teria mais o mês de volta, resolvi que eu seria uma mochileira, que eu iria conhecer o meu Brasil, que eu iria conhecer a nossa cultura. Os perrengues só aumentaram e só me fortificaram a continuar. Tenho marcas no meu corpo contando minha história, tenho pessoas que me amam, tenho pessoas que estão sempre comigo mesmo na distância, hoje tudo é muito ALÉM DAS LENTES e estou feliz com isso. 





Escolhas e consequências. Sinto falta de estar com quem mais amo, mas acredito na importância do que estou fazendo. O mais incrível disso tudo é que essas pessoas sabem de tudo que estou fazendo, sem julgamentos, sem brigas, apenas estão ali para tudo que eu precisar, me apoiando. AMO VOCÊS. Sem contar as pessoas que Deus vêm colocando no meu caminho, apenas gratidão. Às vezes surto, mas é normal do processo de adaptação. Tenham paciência.


RESUMO:

Eu posso, eu quero, eu consigo. O Projeto Além das Lentes é um projeto cultural, ensino fotografia e cinema em espaços com vulnerabilidade social. Dentro do projeto tem a série documental além das lentes, que através do audiovisual as pessoas contam suas histórias. Foi uma forma que encontrei para potencializar pessoas que consideram-se invisíveis perante uma sociedade muitas vezes hipócrita. Começou com vídeos para Instagram e transformei na série documental com episódios de 15 minutos. Dentro do projeto elaboramos o workshop do saber para executar em centros socioeducativos, foi tão bem aceito que resolvemos desenvolver para empresas como forma de manter o projeto e incluir jovens das comunidades, já que comprando um ingresso você acaba gerando oportunidade para outro jovem estar no workshop também. Seguimos nosso percurso de muito conhecimento e emoções. No "FRAGMENTOS" estarei compartilhando sobre as nossas aventuras. Eu sempre coloco no plural eu e o projeto, porque já somos um só <3